Nos textos anteriores sobre o tema Al-Gharb poderá ter ficado a ideia que a finalidade dos mesmos era a critica destrutiva e gratuita ao Al-Gharb. Nada de mais errado. Não sou algarvio mas tenho uma forte ligação ao Algarve por a família da minha mulher ser desta região e lá ir periodicamente. Apenas extravasei o meu sentimento de angustia, de revolta e de impotência perante o estado desta região. Dói-me ver um local que poderia ser transformado num paraíso – acessível ao português economicamente médio - caminhar para a degradação, apenas matizada por alguns óasis, mas esses, toda a gente sabe, são coutada de multimilionários.
Alguns dos dramas que já se vivem no Algarve, em resultado dos atentados ao ambiente, de gestões deficientes e não só - outros, talvez ainda mais graves, estão para vir - devem-se essencialmente à ganância de lucros rápidos e chorudos e à irresponsavel mentalidade do Homem, mais virado para o fácil e imediato, tão ao estilo do tipico “desenrasca-se agora e depois logo se vê”, avesso à planificação fundamentada e investimentos profissionais sérios a médio e longo prazo, aliado ao espírito individualista do “cada um que se safe e o resto que se lixe e o último a sair que apague a luz”.
Infelizmente, este tipo de mentalidade está longe de ser exclusivo do Algarve, antes me parece ser característica muito comum dos portugueses, de norte a sul. Já agora, uma das questões que me deixa perplexo é a seguinte: as qualidades do trabalhador português são enaltecidas no estrangeiro e estão no topo das preferencias estrangeiras, no entanto o inverso passa-se a nível interno e, dizem as estatísticas, o nosso índice de produtividade é muito baixo quando comparado com a média europeia. Talvez a resposta para essa contradição, ainda que ninguém o queira reconhecer, não esteja tanto nos trabalhadores mas mais na deficiente organização do trabalho e nos desmotivadores e magros salários praticados em Portugal. Também penso que outro aspecto muito importante na base da falta de competitividade da economia nacional diz respeito à falta de preparação e visão de negócio dos nossos empresários/gestores, mas esse é um assunto que não quero agora abordar.
Voltando à questão da mentalidade e maneira de estar na vida que fazem com que o nosso desenvolvimento económico e cultural pouco tenha evoluído nas últimas décadas, pelo menos em comparação com os nossos vizinhos europeus e, sem querer ir mais longe, com nuestros hermanos, cito um exemplo muito elucidativo:
Há quase vinte anos, a pesca algarvia sofreu algumas restrições, devido à nossa entrada na CEE (era assim que chamava na altura), levando a que muitas famílias ficassem sem o ganha pão. Mas algo semelhante aconteceu aos nossos vizinhos espanhóis. No entanto, a abordagem ao problema foi completamente diferente dos dois lados da fronteira. Enquanto em Portugal as populações ficaram a chorar, clamando pela solidariedade nacional e por subsídios à inactividade, os espanhóis arregaçaram as mangas e reconverteram a actividade profissional. Dedicaram-se, nomeadamente, ao cultivo do morango. Em poucos anos tornaram-se no maior produtor europeu de morangos e actualmente é impressionante a quantidade de camiões que, em tempo de apanha do morango, atravessa diariamente as fronteiras espanholas para colocar o fruto nos mercados europeus. Convém referir que, em Espanha, ao contrário do que por cá acontece, a apoiar uma agricultura desenvolvida estão associações de produtores bem organizadas que executam a recolha, tratamento, embalagem e escoamento dos morangos. Um exemplo a merecer atenção por parte dos nossos agricultores.
Contudo, os problemas estruturais do turismo algarvio são vários, a que a recente debilidade económica dos turistas ajudou a agravar. Mas há situações, como esta que o João Pereira aflora, que ultrapassam a vertente económica e que não são tão pontuais como parecem. Por outro lado, a aguerrida concorrência do outro lado da fronteira (Islantilla ou Matalascañas, por exemplo), a poucos quilómetros de Portugal, já começa a provocar algum estrago em terras de Al-Gharb.
Penso que todas as questões associadas ao turismo deveriam merecer uma profunda reflexão, por parte dos industriais, comerciantes e autoridades locais.
A continuar assim, o Al-Gharb, arrisca-se a posicionar-se, tal como Portugal dentro UE (UE dos quinze), na cauda do turismo europeu.
Antigamente, era ponto assente que as “novidades” vinham do Algarve.
As “novidades” eram aquelas primeiras frutas e legumes que chegavam às praças e mercados, aparecidas no início da estação, e que tanto gosto nos dava comer depois de meses em que não existiam à venda (Agora, como toda a gente sabe, há sempre de tudo todo o ano, haja ele dinheiro, claro...)
O tempo forte das “novidades” era a Primavera – eram as ervilhas, as favas, os figos, as meloas e mais um ror de coisas. Beneficiando do característico clima ameno do sul, chegavam as frutas e legumes que o centro e o norte só conseguiam pôr no mercado algum tempo mais tarde. O Algarve também era famoso por ser um dos grandes centros produtores do figo, da amêndoa e da alfarroba. As amendoeiras em flor eram quadro típico da zona e não se resumiam a uma mera lenda mourisca. Mas o Algarve também era terra de belas e saborosas laranjas. Recordo com saudade, em tempos que já lá vão, as primeiras viagens que fiz para o Algarve com a Ana, de comboio, para irmos lá passar a Páscoa. Depois de Faro, a gente abria a janela, punha a cabeça de fora e aspirava aquele odor maravilhoso e inconfundível das laranjeiras em flor vindo dos inúmeros pomares. Simplesmente magnifico.
Mas o Algarve não vivia só da terra. O atum, o polvo, a sardinha e diversas outras espécies de peixes eram produtos muito importantes na economia algarvia. As conserveiras chegaram a ser líder da industria local.
Este Algarve, que tenho estado para aqui a falar, já não existe.
No início dos anos sessenta uma nova indústria desabrochou em terras algarvias – o turismo.
Passado pouco mais de quarenta anos podemos afirmar que esta industria mudou quase radicalmente o Al-Gharb e as suas gentes.
O peso da agricultura e da pesca descresceu fortemente a favor do turismo e do comércio complementar a esta actividade. Perderam-se milhares de laranjeiras, amendoeiras, alfarrobeiras e figueiras. Algumas variedades de optimas frutas desapareceram, como as meloas “ognas” (não sei se é assim que se escreve...), com um sabor digno dos deuses do Olimpo, segundo os “entendidos” por não terem procura nos mercados europeus para onde eram exportadas. Nota: esta do desaparecimento das meloas “ognas” não perdoo a ninguém. Porra, é que eram mesmo divinas!
Com a chegada dos turistas, quase toda a gente, em maior ou menor escala, procurou tirar proveito deste maná que tinha caído do céu repentinamente. Assim, mais importante que cuidar das laranjeiras ou cultivar melões ou feijão verde para venda, passou a ser alugar a própria casa ou parte dela, para férias, nos quatro meses de Verão. Quartos, anexos, arrecadações - algumas destas habitações, em más condições, nem sanitários possuíam -, tudo servia para alugar e fazer dinheiro fácil, tal a procura, quase sempre pouco exigente dado o elevado preço dos hotéis da zona e o número restrito de parques de campismo. E com a procura a subir de ano para ano, o preço do aluguer começou a subir exponencialmente em cada Verão que passava.
O betão que invadiu a paisagem algarvia alterou completamente a paisagem, e não só, de toda a orla costeira. Com algumas excepções, o equilíbrio da natureza foi completamente destabilizado e hoje já se fazem sentir as consequências dalguns dos graves danos cometidos.
Em busca de água, o seco Al-Gharb foi furado um pouco por todo lado tornando-se no maior “coador” existente em Portugal. Águas salgadas e insalubres invadiram muitos lugares, inutilizando-os, sem serventia sequer para a agricultura. Os cursos naturais de água foram alterados e, no inverno, já têm acontecido algumas situações dramáticas. Muitas zonas de dunas e de arriba estão em perigo perante a acção inconsciente do homem. Em virtude da inexistência ou do deficiente saneamento básico, muitas zonas balneares algarvias estão a ficar progressivamente poluídas ainda que a constatação de tal facto – se nada se fizer - só seja visível daqui a uns anos.
Enfim, com a chegada do turismo ao Algarve, uns mais outros menos, mas toda a gente pareceu apostada em retirar os mais rápidos e fáceis benefícios da situação... esquecendo, muitas vezes, que nem sempre o que é fácil e rápido se revela o mais adequado a médio e longo prazo.
A ver vamos... Pode ser que algum D. Sebastião apareça...
Há coisas que se adiam “sine die”, umas vezes por razões imprevistas, outras sabe-se lá porquê. Há vários anos que andava para visitar este lugar. Este ano decidi que iria finalmente conhecer o Pulo do Lobo. Para tal bastava um desvio, não muito grande, quando rumasse a terras do Al-Gharb, desde que usasse o corredor Lisboa - Castro Marim com passagem por Beja e Mértola.
O Pulo do Lobo é uma zona do Guadiana, situada a alguns quilómetros a norte de Mértola, onde o rio estreita de tal maneira que quase se passa num pulo. Dizem as lendas e as histórias dos antigos que os lobos, e não só, usavam este lugar para passar de uma margem para a outra do Guadiana. Ligado a este lugar contam-se também inúmeras historias de contrabando e contrabandistas onde, provavelmente, factos reais se aliam à imaginação fértil das gentes locais.
O melhor trajecto, para quem vem de sul pela EN122, é virar à direita, meia dúzia de quilómetros depois de Mértola, na direcção de Corte Gafo de Cima. Outra hipótese é, para quem vem de norte pela EN122, a partir de Beja, cortar à esquerda, perto do entroncamento com EN123. Prepare-se para percorrer cerca de 20 a 30 Km por estradas e caminhos secundários, conforme se vem de norte ou de sul. Em Amendoeira, a estrada de alcatrão termina e começa o estradão de terra batida, em péssimo estado de conservação. São cerca de uma dezena de quilómetros até chegar ao rio. Apesar disso e de ter que fazer novamente o mesmo trajecto de volta, a viagem vale a pena e o sitio merece bem o desvio.
As cascatas naturais do Pulo do Lobo ficam no Parque Natural do Guadiana. Este parque, em contraste com a seca planície alentejana, é quase um pequeno oásis, com mata mediterrânica e cursos de água, e claro, o Guadiana. Aqui o rio é totalmente diferente do Guadiana de Badajoz ou de Vila Real de Santo António.
Inacreditavelmente existe muito pouca informação sobre o Pulo do Lobo e onde obtive dados mais precisos, inclusive um mapa da zona, foi num site alemão – é espantoso como os estrangeiros parecem promover melhor as nossas maravilhas naturais.
No acesso a este ponto do Guadiana atravessámos inúmeras reservas de caça. Pudemos observar durante toda a viagem mais de duas dezenas de bandos de perdizes. Confesso, eu que não sou caçador, que nunca na minha vida tinha visto tanta perdiz.
Finalmente, chegamos ao Pulo do Lobo depois de uma viagem com muito pó, por caminhos desertos onde não encontramos vivalma.
Do alto do monte, a panorâmica geral faz-nos perceber rapidamente o porquê do nome. Trata-se de um estrangulamento geológico natural, onde o rio Guadiana se comprime. O que acontece é que o rio passa, de repente, dos cerca de 25 metros de largura para três metros e, como consequência, o rio aperta-se e a corrente acelera. (A existência, bem visível, de uma ponta de rocha a meio destes três metros, faz-nos crer que a passagem “a salto” é perfeitamente possível para quem não tiver medo das águas revoltas).
Depois assistimos à água a saltar sobre uma cascata com mais de 15 metros de altura e que seguidamente forma uma enorme lagoa natural. O local é de uma grande beleza selvagem, um autêntico brinde da natureza, com um silencio só cortado pelo barulho das águas revoltosas.
No sítio não existe nenhum equipamento de apoio ao visitante, tirando umas duas mesas de pedra. Aliás, o Pulo do Lobo aparenta ser bastante desconhecido pelos nossos compatriotas. É certo que os acessos não facilitam a divulgação do local – mete dó usar um carro, especialmente se for novinho, que não seja um de tracção às quatro rodas, tal o estado da esburacada terra batida.
Mas o local é magnifico o que torna a situação muito estranha.
Direi mais...... situação muito estranha.... existir assim, tão solitariamente ignorado, um recanto com tanta beleza natural.
Na minha opinião, este é um lugar de visita obrigatória que deveria constar em todos os guias turísticos de Portugal. E, claro, ter uma estrada decente que a ele conduzisse.
O Algarve tens condições naturais excelentes. O clima e as praias são certamente do melhor que há em toda a Europa, para não ir mais longe. Mas as condições de desenvolvimento e as infra-estruturas criadas para os turistas e população local é que não são as melhores, com excepções, é claro. É triste ver desperdiçar condições naturais fabulosas e não tirar delas o melhor partido.
Quem se desloca pela costa sul de Espanha – e eu conheço-a quase palmo a palmo, da Isla Canela à fronteira com França - nota uma grande diferença nas condições criadas nas praias espanholas quando comparadas com as nossas.
Ponto de honra da maioria das praias espanholas é ter um passeio que ladeia o areal e onde poderão ser encontrados mais ou menos equipamentos de lazer e/ou estabelecimentos comerciais. Outro equipamento obrigatório em tudo quanto é praia ou prainha espanhola é a existência de chuveiros e lava-pés. Neste aspecto, no Sotavento, e exceptuando talvez Monte Gordo, nada ou pouco existe.
A limpeza das praias, durante a noite, também merece, em Espanha, atenção cuidada – tractores filtram mecanicamente as areias retirando-lhe os lixos acumulados durante o dia e aspergindo-as, nalguns lugares, com produtos desinfectantes e antimicrobianos. Em Portugal, a limpeza da maioria das praias algarvias é feita – quando é, claro - às três pancadas.
Este ano, na praia da Manta Rota, depois da passagem do Levante (vento quente do sul/leste que origina mar revolto com ondas altas) acumulou-se uma quantidade anormal de algas na areia. Alguns habitantes locais afirmaram não recordar uma coisa assim nos últimos trinta anos. Teria sido uma tarefa relativamente simples e rápida proceder, de imediato, à remoção das algas mas desconfio bem que só os protestos enérgicos de turistas e comerciantes locais levaram as autoridades a proceder à sua recolha. E assim, durante três dias, uma camada de algas que, nalguns pontos, atingia o meio metro de altura, infestou o areal da conhecida e turística praia da Manta Rota com um cheiro pestilento a que se juntou mosquitos e outros insectos.
Outra diferença que salta à vista nas praias destes dois países, Portugal e Espanha, diz respeito ao numero de recipientes para lixo existentes nas praias – muitas das nossas nem um têm ou então está cheio ou danificado.
O rol das diferenças entre as praias lusas e as da Andaluzia, Catalunha ou as Valencianas, sem esquecer as da pequena Comunidade de Murcia, infelizmente e para nossa vergonha, é extenso. E, espantosamente, as nossas praias, a nível de condições naturais, em nada ficam a dever às espanholas. Pelo contrário, muitas até são bem melhores, largas e espaçosas, com areia branca e fina, enquanto por Espanha são frequentes as areias negras, ásperas e desagradáveis e as praias pedregosas e estreitinhas.
Mas, com tristeza o digo, os espanhóis que, à partida, tem condições naturais piores, conseguem apresentar um produto melhor e mais agradável à vista e, na maior parte dos casos, a melhor preço. Mas esse é assunto a desenvolver noutro post...
Uma das mais valias do sotavento algarvio é a proximidade a Espanha.
Se, em tempos, a viagem não era fácil – a única alternativa para atravessar o rio Guadiana era o barco, com carreiras entre Vila Real de Stº António e Ayamonte - hoje a mesma não oferece qualquer dificuldade. Uma moderna ponte liga as duas margens.
Antes, exceptuando as pessoas que estavam de passagem para locais mais longinquos, era raro ir-se mais além de Ayamonte, devido à enorme dificuldade que significava o transporte do carro no barco.
Agora, localidades e terras dos dois países, ainda que afastadas algumas dezenas de quilómetros, unem-se em pouco tempo graças à ponte sobre o rio Guadiana e às vias rápidas que a ligam. A facilidade com que se vai de Vila Real de Stº António a Faro, usando a Via do Infante (A22), é a mesma que nos leva a Huelva usando a Auto Pista.
Como em tudo, há o reverso da medalha: o comercio local nas duas margens do Guadiana ressentiu-se fortemente, com especial incidência para o lado português – os espanhóis, com outra mentalidade, rapidamente arranjaram novas alternativas.
Longe vão os tempos em que um corrupio de pessoas debandava as duas margens num incessante movimentos de gentes e mercadorias, muitas delas passadas sob o disfarce e as artes do contrabando.
Mas não eram só portugueses e espanhóis que coloriam as ruas de Vila Real de Stº António. Turistas de outras nações que, a partir do sul de Portugal, procuravam Espanha (como destino ou mera travessia para outros países) faziam desta terra ponto obrigatório de passagem. O movimento era tanto que filas de carros com quilómetros de comprimento, na marginal de Vila Real de Stº António, a Av. da República, era coisa trivial nos meses de Verão. A agravar as dificuldades, entre a meia-noite e tal / uma da manhã (não me recordo bem) e as seis ou sete da manhã, o movimento de barcos sofria um interregno. Assim, não foram poucos os veraneantes que tiveram de fazer uma dormida forçada dentro ou fora das viaturas à espera de vez no próximo barco.
Se, em tempos que já vão longe, no tempo em que a peseta valia muito pouco, os espanhóis viviam mal relativamente aos portugueses, há muito que a situação se inverteu. A paisagem, o tipo de casas, o clima, a cor, os cheiros são similares de ambos os lados da fronteira mas uma observação mais atenta e minuciosa mostra que há algo de diferente. Não é só o som alto e o matraquear rápido das palavras em castelhano que brotam das bocas e ecoa pelas ruas, não é só aquela extroversão e alegria que parecem fazer parte da maneira de ser de nuestros hermanos, não são apenas as matriculas diferentes que identificam os carros espanhóis, não é apenas o elevado número de ciclomotores, tão do agrado da juventude espanhola, que serpenteiam pelas ruas, é algo difícil de explicar que traça um larga barreira entre os dois povos e que acentua, porventura ainda mais, a nossa tristeza natural quando comparada com a exuberância dos nossos vizinhos do lado de lá do Guadiana.
O desenvolvimento económico que existe em Espanha e que consta das estatísticas da UE não é apenas meros números, é sentido por todos os portugueses que ali se deslocam.
No país nosso vizinho, o dinheiro rola a uma grande velocidade, dos empregadores para os empregados e destes para o pequeno e grande comercio - ali ganha-se bastante e gasta-se bastante. E todos parecem satisfeitos com a despreocupada facilidade com que, ao fim da tarde, por ventura terminado o dia de trabalho, talvez antes do regresso a casa, se sentam nas esplanadas e mesas das “tasquinhas” a beber uns copos e saborear as típicas tapas.
E se o nível de vida em Espanha é muito superior ao nacional, os preços de muitos produtos são altamente concorrenciais com os nossos.
Um deles dá pelo nome de gasolina. Não interessa agora porquê mas o diferencial entre as gasolinas – 95 octanas - dos dois lados da fronteira valia, em finais de Julho deste ano, cerca de 22 cêntimos.
Contas por alto indicam que qualquer turista num raio de sessenta quilómetros a partir de Vila Real de Stº António pode fazer uma viagem a Espanha, Ayamonte, à borla. Como? Basta para tanto encher lá, em Ayamonte, o depósito da viatura com cerca de trinta litros de gasolina. O ganho de 6.60 Euros dá, a preços espanhóis, para adquirir gasolina (7.68 litros) para fazer cerca de cento vinte quilómetros (a uma média de 6.5 litros).
Não pensem que achei o ovo de Colombo. Em determinadas alturas do dia os carros portugueses que atestam na primeira bomba de gasolina que se encontra ao chegar a Ayamonte suplantam largamente os dos espanhóis.
Ainda que de Espanha possam não vir bons ventos, vem com certeza “boa” gasolina e não só......
No sul do país, concretamente no Algarve, os empresários da hotelaria, a restauração e comércio em geral, assim como os particulares que alugam casas de veraneio às quinzenas, berram que não se vende e que os quartos e as casas ficaram por ocupar numa percentagem alarmantemente alta. A fazer fé no que ouvi na TV e nos lamentos que escutei “in loco”, a crise está instalada no sul do país e, inclusive, é maior que a do ano anterior. Nem o Euro2004 salvou a situação.
A crise é global mas as diferentes economias ressentem-se de maneira diferente perante situações similares, devido às infra-estruturas onde assenta a sua economia e às políticas que seguem os seus governos e o mundo empresarial.
Em vésperas do Euro2004 foi largamente noticiado que os preços na hotelaria e restauração deveriam sofrer aumentos na casa dos vinte cinco por cento. Era “normal” este acréscimo de preços, diziam alguns empresários, perante a envergadura do acontecimento desportivo e a procura que iria suscitar e, portanto, havia que tirar o melhor proveito dele.
Se, a nível desportivo e organizativo, o evento foi um êxito - nas palavras de dirigentes internacionais -, o mesmo não parece ter-se verificado em termos turísticos, nomeadamente na vertente hoteleira e da restauração, ainda que o saldo esteja longe de ser negativo.
Contudo isso são acontecimentos que já lá vão e agora, em plena época estival, os problemas do turismo deram à costa. O Algarve passou às primeiras páginas clamando por turistas e por receitas perante a fraca ocupação de camas em resultado do decréscimo de visitas, especialmente as oriundas do Reino Unido e Alemanha.
Sem entrar em polémicas de política económica, da qual não sou especialista, todos devem saber que o mundo, e a Europa em particular, se encontra em recessão ou no limiar da mesma e que a recuperação é ainda muito ténue – alguns advertem mesmo que esta é ainda uma miragem. Em termos simples, os europeus andam com falta de dinheiro, ainda que cá no nosso burgo o problema seja muito mais grave. Ora, perante a crise, a solução é simples: ou se riscam as férias no estrangeiro ou se arranja uma opção mais barata.
Como esta recessão não é de hoje nem de ontem, os nossos empresários deveriam estar precavidos contra este problema. Mas tal não aconteceu! De que é que estavam à espera? De algum milagre?
Ainda por cima, o nosso vizinho espanhol é um fortíssimo concorrente e a Espanha é o destino de milhões de veraneantes, inclusive já merecendo as preferências de largos milhares de portugueses.
Há alguns anos atrás, traçou-se como meta para a industria turística algarvia a aposta no turismo de qualidade. O resto não interessava nada, diziam os “entendidos”.
Esta opção não foi acompanhada dos necessários investimentos em acessos rodoviários locais, saneamento básico e outras infra-estruturas base, equipamentos balneares e todo o equipamento necessário ao turismo de qualidade. A simples limpeza das zonas balneares e circundantes deixava e deixa muito a desejar, já para não dizer que, nalgumas famosas praias algarvias, o areal tem uma concentração de pontas de cigarro e outras imundices que evidencia manifesta falta de limpeza. Assim onde iria assentar o turismo de qualidade? Nalgumas unidades hoteleiras? Apenas nas “Quintas do Lago”? E o resto das terras e praias algarvias eram o quê?
Algum tempo depois, em ano de forte queda de fluxos turísticos exteriores, os empresários foram obrigados a virar-se para os potenciais turistas nacionais. É assim neste país: quando a teta da vaca seca procura-se a da cabra. A aposta destes empresários está virada para o dinheiro chorudo das fortes economias estrangeiras mas, na falta deste, que remédio senão contentarem-se com os tostões do turismo nacional!...
Este ano a história parece repetir-se. Mas os tostões nacionais já tiveram melhores dias e não fosse a fama das delícias – ou pretensas delícias - de umas férias em terras do Al-Gharb, que faz as pessoas fazerem grandes sacrifícios para as puderam gozar, a crise estava definitivamente implantada nesta zona balnear do país.
A política turística em terras do Al-Gharb parece caminhar ao sabor do vento: entre a calmaria das suaves noites estivais, passando pelos fortes sopros das marés vivas de Setembro ou rodopiando entre os “vendavais” que periodicamente se abatem sobre o sul de Portugal.
A continuar assim não vamos lá e, no entanto, o modelo sustentável, que nos deveria servir de exemplo, está aqui bem perto. Refiro-me a Espanha.....